SOMOS TEXTOS

A gente aprende que um texto precisa ser coeso e coerente, que há uma linha de raciocínio que precisa ser seguida por todo o escrito. Ele também precisa ser legível e ter bons argumentos.
Isso é um ideal, relativamente fácil de ser aplicado em uma produção fechada e curta, com um fim em vista.
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Nós também somos textos. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Superficialmente legíveis e interpretáveis.
Mas somos um texto incoerente.
É difícil manter o nexo em um escrito muito longo, onde há vários adendos acontecendo o tempo todo. Percebemos isso facilmente na outra pessoa. Nossa leitura rápida do outro não nos permite apreender o sentido maior. Ainda que lêssemos mais devagar, não conseguiríamos. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Somos incoerentes com nós mesmos.
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Não observamos a extensão e consequências dos nossos pensamentos. Eles se rompem quando se tornam inconvenientes.
Nossas práticas ficam pela metade. Nossas opiniões são parciais e condicionais.
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Tentamos ler o outro quando mal conseguimos nos ler.
Apontamos a incoerência do outro quando sequer conseguimos vislumbrar as nossas.
Não que haja um escritor e leitor perfeito, estamos fadados ao erro. Estar na linguagem é estar na incerteza.
O texto do outro está tão mal acabado quanto o nosso.
Talvez sequer sejamos texto, mas só o rascunho.